domingo, 24 de julho de 2022

As palavras...


Fotografia: teca via celular - Resende, RJ - Brasil 

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade - Procura da poesia in A rosa do povo

Fotografia: André Jorge via celular  - Manaus, AM - Brasil 

A vida é aquilo que se passa enquanto você olha o celular…

Pink Floyd - Lost for words 

22 comentários:

  1. Maravilloso!!!! Me encanta la frase "No hay creación ni muerte antes de la poesía". Enhorabuena Teca y gracias por compartir. Un fuerte abrazo desde el norte de España.

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  2. A poesia nunca pode ser apenas uma sucessão de palavras... ela tem que acrescentar algo ao mundo e ao entendimento do mesmo... a verdadeira poesia não está no formato... mas na essência que ela oferece... portadora de emoções únicas, que traduzem o mundo, visto pela perspectiva de cada autor, aos seus leitores. A poesia nunca é um fim em si mesmo... é a nascente de uma nova forma de consciência sobre o mundo, e o papel de cada um nele!
    Adorei o poema! Denso... profundo... e que nos obriga a pensar no verdadeiro papel das palavras... pois estas podem ser instrumentos... de muitos e variados fins! Não devem ser pronunciadas em vão... se têm tantas missões que podem cumprir... no sentido de melhorar o mundo, e a nossa visão do mesmo!
    Como sempre, grandes escolhas por aqui, Teca! As imagens, estão uma maravilha... e a escolha musical... verdadeiramente poderosa!
    Parabéns, por mais uma publicação de notável qualidade!
    Um beijinho grande! Feliz semana! Tudo de bom!
    Ana

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    1. Querida Ana, você veio com um comentário precioso e poderoso! Sábias palavras, obrigada!
      Tenha uma prazerosa semana!
      Um beijo carinhoso

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  3. Precioso poema con frases muy interesantes.
    Refrescante la foto de André Jorge; mucho calor por mi tierra
    Un abrazo

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    1. Tenho visto as notícias e fiquei bastante preocupada com o calor imenso por essas bandas… se cuida, Manoel, se hidrate sempre que possível!
      Um beijo

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  4. Hola querida amiga Teca,precioso poema como siempre tu escritura nos llena a todos.Un fuerte abrazo amiga y feliz semana.

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    1. Obrigada pela presença constante, amigo Antonio!
      Se cuide! Boa semana!
      Um beijo

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  5. Siempre preciosos tus poemas, un placer leerte. Muchos besos.

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  6. ES un poema que en la anáfora del no hacer, está dejando una lección de vida, para el hacer. Un abrazo. Carlos

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  7. Me encanto.

    El vivir va de la mano con el sentimiento que emana del pensamiento.

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  8. Indudablemente, como bien lo expresas con sabiduría y bella prosa, el mentir es solo una perdedera de tiempo.

    Abrazos grandes!!!!!!!

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  9. Teca es mi deseo invitarte al otro blog de Aula de Paz , donde en cinco partes expreso un resumen de mi labor en la sociedad , esperando sea de tú agrado , un fuerte abrazo .jr.

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    1. Obrigada pelo convite! Estarei lá assim que puder…
      Um beijo

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  10. A poesia também nos ajuda a refletir sobre o mundo e tudo o que nos rodeia.
    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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    1. Vejo a poesia como reflexo da alma de quem escreve…
      Um beijo

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  11. I’m very well, thanks! And you? 😉
    Um beijo 😘

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