segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Diante da visão da infinita beleza...


foto: amapolas - presente do amigo ANTONIO CAMPILLO


Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando 
Onde não olha, voltou 
E estamos os dois falando 
O que se não conversou 
Isto acaba ou começou? 

Fernando Pessoa - Sorriso audível das folhas

sábado, 27 de outubro de 2012

O autorretrato


foto: internet - Anildo Motta desenhando

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão… 
e, desta lida, em que busco 
- pouco a pouco - 
minha eterna semelhança, 
no final, que restará? 
Um desenho de criança… 
Corrigido por um louco! 

Mário Quintana



Trio Amaranto - Desenho de Criança


foto: internet - desenho de criança 


Um fim de semana maravilhoso!
Beijo carinhoso e flores do campo 
com frescor de primavera brasileira.

teca


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Elevando o espírito...


foto: Dois urubus em voo - Tycho Fernandes



Se te falo é para melhor te ouvir 
Se te ouço estou certo de ter compreendido 
Se sorris é para melhor me invadir 
Alcanço o mundo inteiro se me sorris 
Se me uno a ti é para me continuar 
Se vivermos tudo será como gostamos 
Se eu te deixo recordar-nos-emos 
E ao deixar-nos voltaremos a reencontrar-nos.

Paul Éluard - Certeza

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Sedimentos XVIII



foto: Tarabilla norteña (Saxicola rubetra) - Ramón Suárez 




Leve é o pássaro: 
e a sua sombra voante, 
mais leve. 

E a cascata aérea 
de sua garganta, 
mais leve. 

E o que lembra, ouvindo-se 
deslizar seu canto, 
mais leve. 

E o desejo rápido 
desse mais antigo instante, 
mais leve. 

E a fuga invisível 
do amargo passante, 
mais leve. 


Cecília Meireles - Leveza

domingo, 14 de outubro de 2012

Sobre leveza e inutilidades



foto: internet  

Eu ando à caça de palavras aladas
que possam compor versos planadores
e recheados de desimportância.

Palavras-borboleta, conhecedoras 
do voo e da metamorfose,
donas de seu destino. 
Não desejo aprisionar significâncias.

Se for à noite, 
que sejam palavras vaga-lumes
ou de estrelas falantes. 
Estou cansado de opacidades,
de seriedades,
do inútil marrom que não sabe sorrir.

Feliz eu ficaria se delas nascesse
um poema com a mesma inutilidade
dos aviõezinhos de papel,
tantas vezes atirados ao vento
bem de lá da minha infância...

Celso Mendes


foto: internet


sábado, 13 de outubro de 2012

Estados de ânimo



foto: Laguna Verde de Apaneca, El Salvador - internet



A veces me siento como un águila en el aire...
(A propósito de una canción de Pablo Milanés) 

Unas veces me siento
como pobre colina, 
y otras como montaña 
de cumbres repetidas, 
unas veces me siento 
como un acantilado, 
y en otras como un cielo 
azul pero lejano, 
a veces uno es 
manantial entre rocas, 
y otras veces un árbol
con las últimas hojas, 
pero hoy me siento apenas 
como laguna insomne, 
con un embarcadero 
ya sin embarcaciones, 
una laguna verde 
inmóvil y paciente 
conforme con sus algas 
sus musgos y sus peces, 
sereno en mi confianza 
confiando en que una tarde, 
te acerques y te mires.. 
te mires al mirarme. 

Mario Benedetti 



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Liberdade...



foto: urubu-de-cabeça-vermelha - Cathartes aura - amor de teca



...essa palavra 
que o sonho humano alimenta 
que não há ninguém que explique 
e ninguém que não entenda... 

Cecília Meireles




Neil Young - Natural Beauty


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Os poemas




foto: Gaviota reidora - Larus ridibundus* 

Os poemas são pássaros que chegam 
não se sabe de onde e pousam 
no livro que lês. 

foto: Abejaruco común - Merops apiaster* 

Quando fechas o livro, eles alçam voo 
como de um alçapão. 

foto: Martín pescador - Alcedo atthis* 

Eles não têm pouso 
nem porto; 
alimentam-se um instante em cada 
par de mãos e partem. 

foto: Cigüeñuela común - Himantopus himantopus* 

E olhas, então, essas tuas mãos vazias, 
no maravilhado espanto de saberes 
que o alimento deles já estava em ti… 

Mario Quintana 


*Fotografias de Antonio Puig Garcias