sábado, 28 de abril de 2012

Poema das árvores


  

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

 


Começam por ser nada. Pouco a pouco 
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.


  


Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos, 
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.


 


Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores, 
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.


 


E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.


 


Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.




Os animais são outra coisa. 
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.


 


As árvores não. 
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.




Estendem os braços como se implorassem; 
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.


 


Sós, sempre sós. 
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.




Virtude vegetal viver a sós 
e entretanto dar flores. 

António Gedeão

(Rómulo de Carvalho)




segunda-feira, 23 de abril de 2012

Polar intimidade




foto: Infinito momento - teca



 (...)

 Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.

(...)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Nos altos ramos



foto: Acima do que sinto - teca



Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta floresta, em este som me perco
E sozinho medito.

Assim no mundo, acima do que sinto,

Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E nada tem sentido — nem a alma
Com que penso sozinho. 

Fernando Pessoa (Ricardo Reis) 




 


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Vitalidade



fotos: teca

(...)
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado 


foto: teca


Paulinho Nogueira - Bachianinha no.1 



sábado, 7 de abril de 2012

O amor nunca acaba



foto: internet

E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor. 

Khalil Gibran


VERSÃO EM ESPANHOL



foto: internet


Love is never ending - Brad Paisley 


terça-feira, 3 de abril de 2012

Voy a esperarte...



 foto: Verde que te quero - amor de teca 



Voy a esperarte, allí,
Donde nada termina,
Donde el tiempo no sabe
Engendrar un final,
Aguardaré tu luz
Con los ojos del alma
De par en par abiertos,
Como ventanas ávidas;
Como alas indomables
En los predios del viento,
República de azul
Rendida entre tus brazos,
Llevaré tu recuerdo
Palpitando en mi pecho,
Descalabrando abismos
En la hez del ocaso.
Voy a esperarte, allí,
Donde la vida anhela,
Ansiosa desde siempre,
La paz de nuestro abrazo.