quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ubiquidade


foto: Te gusta conducir - Roberto Ayape


Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás. 

Manuel Bandeira 


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu não o tinha olhado


foto: internet


Eu não o tinha olhado e nossos passos
soavam juntos.

Nunca escutei sua voz e minha voz ia
enchendo o mundo.

Houve um dia de sol e minha alegria
em mim não coube.

Senti a angústia de carregar a nova
solidão do crepúsculo.

Senti-o junto a mim, braços ardendo,
limpo, sangrante, puro.

Dentro da noite negra a minha dor
entrou no coração.

E vamos juntos. 

Pablo Neruda 



Obrigada por compartilhar, Lídia, essa música é um sonho!
Beijos ternos.


terça-feira, 28 de setembro de 2010

As ondas




As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim. 

Sophia de Mello B. Andresen


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Conspirações


foto: internet


alguma coisa se desprende do meu corpo

e voa
não cabe na moldura do meu céu.
sou náufrago no firmamento.
o vento da poesia me conduz além de mim.
o sol me acende
estrelas me suportam
Odisseu nos subúrbios da galáxia.
amor é o que me sabe e o que me sobra
outro castelo que naufraga
como tantos que a força do meu sonho
quis transformar em catedrais.
ilusões? ainda me restam duas dúzias.
conspirações de amor, talvez não mais. 

Geraldo Carneiro


domingo, 26 de setembro de 2010

Ai que saudade d'ocê...



Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que não te vejo
Ai que saudade d'ocê 

Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com a frase dizendo assim
Faz tempo que não te vejo
Que é pra matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim

E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caía no choro
E eu chorando pela estrada
Mas o que é que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é d'ocê

Vital Farias


Pra ser amor...

foto: internet

Pra ser amor...
Tinha que ser mais forte do que nós,
ser companhia quando estamos sós.
Ser invisível e abrasador.

Pra ser amor
tinha que haver bem mais compreensão,
tinha que ser maior do que a razão,
ser imbatível como um vencedor.

Se fosse amor todo universo ia conspirar,
dando um remédio pra aliviar a dor.

Pra ser amor tinha que ser nós dois.

Maurício Gasperini


sábado, 25 de setembro de 2010

Leitura natural


foto: Samambaia Gigante - Júlio César Pistone

Tendo lido os jornais
— infectado a mente, e nauseado os olhos —
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias
da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.
 
Affonso Romano de Sant’Anna


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sem ti

foto: internet


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem lua.
Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

É primavera!



"De repente há flores nos caminhos
Há tons de rosas, de roxos e lilases,


Há tons suaves no cantar dos passarinhos
Dentro do peito os brotos de quimera
Vão se abrindo no nascer da primavera". 


fotos: Margaritas(II), Orquídeas, Tagetes - Pedro Sanchez



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

La forma de tu ausencia

 foto: internet


Ni un momento
he dejado de ver en este cuerpo
la forma de tu ausencia,
como una esfera que ya no te contiene.
Pero dos cosas constantes te revelan,
te tienen de cuerpo entero en el instante,
y son la cama y la mesa de madera,
hechas a la medida del amor
y del hambre

Homero Aridjis



terça-feira, 21 de setembro de 2010

O mundo é grande


foto: Uma janela com vista para o mar gelado - Isabel Bernardo



O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar. 


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Passarinho

foto: Pequeño corredor - Javier Gomollón

Eu vi um passarinho
Entre a folhagem do meu jardim,
Pequeno e gorduchinho
Brincando entre as folhas de cetim.
Voa, voa passarinho,
Numa alegria sem fim
Por entre as folhas de arminho
brancas como jasmim.
Voa, voa passarinho,
Por sobre o tenro alecrim
Busca a ternura do céu clarinho
Para embelezar meu jardim.

Vera Beatriz Sass

A manhã se rompeu



Morning Has Broken 
Cat Stevens 

Morning has broken, like the first morning 
Blackbird has spoken, like the first bird 
Praise for the singing, praise for the morning 
Praise for the springing fresh from the world 

Sweet the rain's new fall, sunlit from heaven 
Like the first dewfall, on the first grass 
Praise for the sweetness of the wet garden 
Sprung in completeness where his feet pass 

Mine is the sunlight, mine is the morning
Born of the one light, eden saw play 
Praise with elation, praise every morning 
God's recreation of the new day


domingo, 19 de setembro de 2010

Entre o sono e o sonho


foto: margens do rio yangtze....kilometros sem fim - maria papoila


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa



Nos braços do anjo



 


In The Arms Of The Angel
Sarah Mclachlan

Spend all your time waiting for that second chance 
For the break that will make it ok
There's always some reason to feel not good enough 
And it's hard at the end of the day 
I need some distraction oh beautiful release 
Memories seep from my veins 
They may be empty and weightless and maybe 
I'll find some peace tonight 

In the arms of an Angel fly away from here 
From this dark, cold hotel room, and the endlessness that you fear 
You are pulled from the wreckage of your silent reverie 
You're in the arms of an Angel; may you find some comfort here 

So tired of the straight line, and everywhere you turn 
There's vultures and thieves at your back 
The storm keeps on twisting, you keep on building the lies 
That you make up for all that you lack 
It don't make no difference, escaping one last time 
It's easier to believe 
In this sweet madness, oh this glorious sadness 
That brings me to my knees 

In the arms of an Angel far away from here 
From this dark, cold hotel room, and the endlessness that you fear 
You are pulled from the wreckage of your silent reverie 
In the arms of an Angel; may you find some comfort here 

You're in the arms of an Angel; 

may you find some comfort here

*******************************
Thank you very much for sharing, dear jasmin!
Happiness and peace of mind!
With love.


sábado, 18 de setembro de 2010

Primavera outonal

foto: Ipê Amarelo - Roberto Machado Alves

 
Viver é mais que saber
que nada é definitivo
quando o corpo está vivo,
quando bate o coração.
O resto é futuro incerto.
Felicidade de giz
desenhada no deserto.

Viver é mais que querer
estar aqui ou ali.
É simplesmente viver.
Sem procurar entender
por que o março outonal
é a primavera a florir.

Kátia Drummond



Este é o prólogo


foto: O livro de poemas - António Manuel Pinto da Silva


Deixaria neste livro toda a minha alma. 
Este livro que viu as paisagens comigo 
e viveu horas santas. Que pena dos livros 
que nos enchem as mãos de rosas e de estrelas 
e lentamente passam! 
Que tristeza tão funda é olhar os retábulos 
de dores e de penas que um coração levanta! 
Ver passar os espectros de vida que se apagam, 
ver o homem desnudo em Pégaso sem asas, 
ver a vida e a morte, a síntese do mundo, 
que em espaços profundos se olham e se abraçam. 
Um livro de poesias é o outono morto: 
os versos são as folhas negras em terras brancas, 
e a voz que os lê é o sopro do vento que lhes incute nos peitos 
- entranháveis distâncias. 

O poeta é uma árvore com frutos de tristeza 
e com folhas murchas de chorar o que ama. 
O poeta é o médium da Natureza 
que explica sua grandeza por meio de palavras. 
O poeta compreende todo o incompreensível 
e as coisas que se odeiam, ele, amigas as chamas. 
Sabe que as veredas são todas impossíveis, 
e por isso de noite vai por elas com calma. 
Nos livros de versos, entre rosas de sangue, 
vão passando as tristes e eternas caravanas 
que fizeram ao poeta quando chora nas tardes, 
rodeado e cingido por seus próprios fantasmas. 
Poesia é amargura, mel celeste que emana 
de um favo invisível que as almas fabricam. 
Poesia é o impossível feito possível. 

Harpa que tem em vez de cordas 
corações e chamas. 
Poesia é a vida que cruzamos com ânsia, 
esperando o que leva sem rumo a nossa barca. 
Livros doces de versos sãos os astros que passam 
pelo silêncio mudo para o reino do Nada, 
escrevendo no céu suas estrofes de prata. 
Oh ! que penas tão fundas e nunca remediadas, 
as vozes dolorosas que os poetas cantam ! 
Deixaria neste livro 
toda a minha alma... 

Garcia Lorca 


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O homem e o mar


foto: Playa panorámica - Alberto Cervantes


Homem livre, hás de sempre amar o mar,
O mar é teu espelho e contemplas a mágoa
Da alma no desdobrar infindo de sua água,
E nem teu ser é menos acre ao se abismar.

Apraz-te mergulhar em tua própria imagem;
O olhar o beija e o braço o abraça, e o coração
No seu próprio rumor encontra distração,
Ao ruído desta queixa indômita e selvagem.

Mas ambos sempre sois tenebrosos e discretos:
Homem, ninguém sondou teus fundos abismos,
Mar, ninguém viu jamais teus tesouros íntimos,
Porque muito sabeis guardá-los secretos!

Porém passados são séculos inumeráveis
Sem que remorso ou pena a vossa luta corte,
De tal modo quereis a crueldade e a morte,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis! 

Charles Baudelaire 


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Buenos días, tristeza

foto: internet

 
A veces llega la tristeza. Trae
las alas suaves de conformidades,
los ojos bajos y la piel desnuda,
y parece tan fácil entregarse,
despojarse, poner bajo sus plantas
el reino, los poderes y las armas,
el amor sobre todo, y esos últimos
retales que nos quedan de alegría.
A veces gana la tristeza; entonces,
qué lujo de matices su victoria,
qué fasto de sus grises y sus pardos
ocupándolo todo.
Buenos días,
-he de decir-, tristeza, aquí me tienes.

Josefa Parra

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Roçar a alma


foto: internet


Não digo que te amei 
por ter possuído o teu corpo, mas sim por
ter roçado a tua alma. 
Se pudesse estar apenas perto de ti, a ouvir
a tua voz e a demorar o meu olhar sobre o teu, 
ter-te-ia amado na mesma...
Fiquei presa 
no que está para lá do visível; 
enredada entre as folhas
da tua verdadeira essência.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Infinitude


foto: olhar - tossan


O fotógrafo tem a mesma função do poeta,
eternizar o momento que passa.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Relógio do coração

foto: Coração na Natureza - NunoFRocha


Há tempos em nossa vida que contam de forma diferente. Há semanas que duraram anos, como há anos que não contaram um dia. Há paixões que foram eternas, como há amigos que passaram céleres, apesar do calendário nos mostrar que ficaram por anos em nossas agendas. Há amores não realizados que deixaram olhares de meses, e beijos não dados que até hoje esperam o desfecho.

Há trabalhos que nos tomaram décadas de nosso tempo na Terra, mas que nossa memória insiste em contá-los como semanas. E há casamentos que, ao olharmos para trás, mal preenchem os feriados da folhinha. Há tristezas que nos paralisaram por meses, mas que hoje, passados os dias difíceis, mal guardamos lembrança de horas. Há eventos que marcaram, e que duram para sempre - o nascimento do filho, a morte da avó, a viagem inesquecível, o êxtase do sonho realizado. Estes têm a duração que nos ensina o significado da palavra "eternidade".


Já viajei para a mesma cidade uma centena de vezes, e na maioria das vezes o tempo transcorrido foi o mesmo. Mas conforme meu espírito houve viagem que não teve fim até hoje, como há percurso que nem me lembro de ter feito, tão feliz estava eu na ocasião. O relógio do coração - hoje descubro - bate noutra frequência daquele que carrego no pulso. Marca um tempo diferente, de emoções que perduram e que mostram o verdadeiro tempo da gente.


Por este relógio, velhice é coisa de quem não conseguiu esticar o tempo que temos no mundo. É olhar as rugas e não perceber a maturidade. É pensar antes naquilo que não foi feito, ao invés de se alegrar e sorrir com as lembranças da vida. 
Pense nisso. E consulte sempre o relógio do coração: ele lhe mostrará o verdadeiro tempo do mundo.
Alexandre Pelegi

domingo, 12 de setembro de 2010

A culpa é da vontade


foto: internet


A culpa não, não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa não, não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar 

A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir 

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade 

A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver 

A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que sufoca o meu cantar 

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade



António Variações


sábado, 11 de setembro de 2010

Tocando em frente

Conta-se que num dia qualquer Almir Sater estava em São Paulo para uma temporada e desceu do seu apartamento para tomar um cafezinho num mercado ali perto.
Chegando ao destino, encontrou Renato Teixeira que o convidou para experimentar uma viola nova que acabara de comprar.
Enquanto tomavam café, Almir dedilhou a viola e soltou... "Ando devagar"...ao que Renato emendou ..."porque já tive pressa".
Dizem que essa maravilha ficou pronta em 10 minutos. 
Um dia alguém perguntou ao Almir como essa música fora feita e ele respondeu... “Ela já estava pronta... Deus apenas esperou que eu e o Renato nos encontrássemos para mostrá-la pra gente".
Não sei se isso é lenda ou é verdade... tanto faz.
Música e letra são realmente espetaculares...uma jóia rara, feita num raro momento de inspiração. E melhor ainda na voz da Bethânia, a "abelha rainha".


Disco voador (fragmentos)
Texto de Fausto Fawcet

"Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu, nem discos voadores.
Os céus estão explorados, mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de TV.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo, eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de Saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador".



Todo esse tempo



All This Time
Six Part Invention

I lie awake thinkin' of the days gone by
Wishing that you're still here with me, baby
I was wrong and now you're gone
Please hear this heart of mine
Hear me calling

Whenever you're around me
I feel different in your arms
With the way you touch me
I feel the love that last a lifetime
Your love so true
And I never knew
That it's you I need all this time

See these tears that keep fallin' from my eyes
Wishing that I never let you go, my baby
Take this heart, feel me with your love
Please hear these words of mine
Hear me calling

Yeah yeah

Your love so true
I never knew
That it's you I need all this time
All this time
All this time


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Estoque

foto: internet



chegou o vendedor e me disse
que não havia livro de poema
daquele poeta que lhe perguntei
lamentamos, senhor, mas não há
mas posso trazer outros livros

me disse ainda que os poemas
estariam em minhas mãos de imediato
viriam das pilhas da distribuidora
mas de imediato vi apenas livros
na estante acumulados, escondidos

nas camadas guardadas de poeira
no objetivo das contas de inventário
em que se somam horas, dias e anos
dentro de espaços em aparelhagem
entre folhas de livro atacado ou varejo

e assim continuou falando da breve
atualização dos acervos no estoque
armazenados em curto prazo de tempo.
a ele nem respondi, não esperei saber
contudo digo que de lá saí com um poema

antes só havia perguntado: poema?
eu vi, tu viste, ele viu e me deram
estoques, reservas enredadas.
mas nenhum poema nunca faltará
porque existe com ou sem falhas de loja

antes só havia perguntado: poema?
e me trouxeram quantidades
necessidades, fornecimentos.
mas a porta da livraria se abriu
esqueci o vendedor e o livro

e lembrei que a poesia não falta
por isso, de lá saí com este poema
 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Eu quero o amor


Lisbela
Caetano Veloso e José Almino 

Eu quero a sina de um artista de cinema
Eu quero a cena onde eu possa brilhar
Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo
Um beijo imenso, onde eu possa me afogar
Eu quero ser o matador das cinco estrelas
Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão
A Patativa do Norte, eu quero a sorte
Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar
Pra me danar, por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar
Ser o primeiro, ser o rei, eu quero um sonho
Moça donzela, mulher, dama, ilusão
Na minha vida tudo vira brincadeira
A matinê verdadeira, domingo e televisão
Eu quero um beijo de cinema americano
Fechar os olhos fugir do perigo
Matar bandido, prender ladrão
A minha vida vai virar novela
Eu quero amor, eu quero amar
Eu quero o amor de Lisbela
Eu quero o mar e o sertão
Eu quero amor, eu quero amar
Eu quero o amor de Lisbela
Eu quero o mar e o sertão


Clique na imagem para conhecer sobre o filme.


Sedimentos

foto: internet

Qual é então a diferença?


foto: internet


"A diferença entre os países pobres e os ricos não é a idade do país. Isto pode ser demonstrado por países como Índia e Egito, que têm mais de 2000 anos e são pobres. 
Por outro lado, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, que há 150 anos eram inexpressivos, hoje são países desenvolvidos e ricos.
A diferença entre países pobres e ricos também não reside nos recursos naturais disponíveis.
O Japão possui um território limitado, 80% montanhoso, inadequado para a agricultura e a criação de gado, mas é a segunda economia mundial. O país é como uma imensa fábrica flutuante, importando matéria-prima do mundo todo e exportando produtos manufaturados.
Outro exemplo é a Suíça, que não planta cacau mas tem o melhor chocolate do mundo. Em seu pequeno território cria animais e cultiva o solo durante apenas quatro meses no ano. Não obstante, fabrica laticínios da melhor qualidade. É um país pequeno que passa uma imagem de segurança, ordem e trabalho, o que o transformou na caixa forte do mundo.
Executivos de países ricos que se relacionam com seus pares de países pobres mostram que não há diferença intelectual significativa.
A raça ou a cor da pele também não são importantes: imigrantes rotulados de preguiçosos em seus países de origem são a força produtiva de países europeus ricos.

Qual é então a diferença?

A diferença é a atitude das pessoas, moldada ao longo dos anos pela educação e pela cultura.
Ao analisarmos a conduta das pessoas nos países ricos e desenvolvidos, constatamos que a grande maioria segue os seguintes princípios de vida:
1. A ética, como princípio básico.
2. A integridade.
3. A responsabilidade.
4. O respeito às leis e regulamentos.
5. O respeito pelo direito dos demais cidadãos.
6. O amor ao trabalho.
7. O esforço pela poupança e pelo investimento.
8. O desejo de superação.
9. A pontualidade.

Nos países pobres apenas uma minoria segue esses princípios básicos em sua vida diária.
Não somos pobres porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco.
Somos pobres porque nos falta atitude. Nos falta vontade para cumprir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas.
SOMOS ASSIM, POR QUERER LEVAR VANTAGENS SOBRE TUDO E TODOS.
SOMOS ASSIM POR VER ALGO DE ERRADO E DIZER: “DEIXA-PRA-LÁ”!
DEVEMOS TER ATITUDES E MEMÓRIA VIVA.
SÓ ASSIM MUDAREMOS O BRASIL DE HOJE."

(Desconheço a autoria do texto - recebi por e-mail)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Estudo para metáfora

foto: Um mundo melhor - Internet


Rasguei dos meus cadernos
os meus sonhos colhidos
nos verdes campos de aurora.

Rasguei dos meus cadernos
coisas e frases definitivas
como existência ou alma.

Rasguei dos meus cadernos
as metáforas
e das metáforas
lancei nas sombras.

II


Onde foi o princípio e o findo
é metáfora.

Onde o sol toca ao meio-dia
é metáfora.

Onde existem voos ausentes
é metáfora.

Onde se vasculha os destroços
é metáfora.

E nos campos onde se fazem
a textura.

Eric Ponty 


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nosso desejo

foto: Flor azul com insetos - Roberto Machado Alves


Se siente inconsciente
algo silente en el ambiente.
Madre naturaleza vientre de vida,
regálame la esencia que encierras en tu interior.  

Independência ou morte?

 imagem: Ivan Cabral


Independência do Brasil - 7 de setembro de 1822

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Cantiga de Malazarte

foto: internet
Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor, 
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo. 

Murilo Mendes 


Se eu pudesse...


foto: internet


Se eu pudesse deixar algum presente a você, 
deixaria aceso o sentimento de amar 
a vida dos seres humanos. 
A consciência de aprender 
tudo o que foi ensinado pelo tempo afora. 
Lembraria os erros que foram cometidos
para que não mais se repetissem. 
A capacidade de escolher novos rumos. 
Deixaria para você, se pudesse, 
o respeito àquilo que é indispensável. 
Além do pão, o trabalho. 
Além do trabalho, a ação.
E, quando tudo mais faltasse, um segredo: 
o de buscar no interior de si mesmo 
a resposta e a força para encontrar a saída. 

Mahatma Gandhi


sábado, 4 de setembro de 2010

O jardineiro e a pedra


foto: Lago Ercina (picos de europa 2009) - seva


E tanto amava 

terra e vento 
que não sabia mais 
se jardinava 
alguma flor 
ou a própria alma. 

Um beija-flor 
Pousou 
Na sua calma. 

As flores foram feitas 
para florir e ser colhidas.



Salta a criança 
muros e grades 
levando rosas. 
Não hesita colher 
mesmo em jardim alheio. 

O mais são pernas 
e a vontade enorme 
de pintar a terra. 

O poeta trabalha no céu 
com mãos de vento.


Sabe que é difícil 
plantar-se nas nuvens 
sem cair do céu. 

Sabe mais seguro 
plantar-se na terra 
e florir para o céu. 

Enraíza-se porém nas nuvens 
e debruça suas flores sobre a terra.

César de Araújo.


Além de mim

foto: internet

Além de mim, quero apenas
essa tranquilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Olga Savary

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Balões soltos no parque

foto: internet


Suas palavras são balões soltos no parque,
pipas alaranjadas que recortam o azul
com cauda de samambaia e serpentina.
São notas musicais que bailam nas nuvens,
Desenhos animados de alucinada correria.
São mapas de piratas, tesouros de turmalina,
Poções de feiticeiras doidas e enternecidas,
Encantos que fazem brotar luas e estrelinhas,
Pegadas das folhas de outono no vento,
Florestas de esmeraldas, fogueiras de rubis.
Falam dos nomes e sobrenomes das fadas,
Apelidos de quando os magos ainda eram guris.
São pequenos sinos que dão risadas delicadas,
Têm o som da chuva que balança os trevos,
São douradas como abelhas carregando mel
e preenchem de sonhos os cinco sentidos.

Alvaro Bastos

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sossega, coração!


foto: internet

 
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres. 

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo! 

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme. 

Fernando Pessoa 




Mojandolo todo
Luis Eduardo Aute

Tendida,
con los muslos como alas abiertas,
dispuestas al vuelo.. me incitas,
me invitas a viajar por lácteas vías
y negros agujeros levemente desvelados
por tú mano que juega
por pudores y sudores enjugando
entre pétalos de carne, el estigma
de tu flor más desnuda,
Mojándolo todo...

Volando por universos de licor.
Húmedas llamas
los labios que con tus dedos
delicadamente delatas, dilatas para mí,
mostrándome, obscena la cueva del milagro
por donde mana el líquido rayo de la vida,
incandescente fuente, lechosa lava,
salpicaduras de agua profunda que inunda
Mojándolo todo...
volando por universos de licor.

Mi boca
besando tus labios incendiados
se dispone a beber en tu cáliz de polen y licor
y, entre zumos y zumbidos de olas y alas,
libidinosamente libar el néctar
de la flor de tus mareas...
lamiendo la miel salada que te fluye
y quema mi lengua que vibra,
lasciva, entre savia y saliva
mojándolo todo...
volando por universos de licor

Mis alas
de cera batiendo combatiendo tu fuego
en oleadas de ardientes espumas y plumas
e Ícaro volando tan alto, tan alto...
que a punto de entrar en el jardín del Edén,
fundido su vuelo por tu derramado sol,
cae, como el ángel exterminado,
al mar de los naufragios,
mojándolo todo...
volando por universos de licor